Contexto do Mangá e do Animê no Brasil

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Quadrinhos e animações japonesas conquistam fãs Brasileiros

Os quadrinhos (MANGA) e desenhos animados japoneses (ANIME) são o foco deste levantamento feito em 2008 pela Embaixada do Japão no Brasil.

-Quando surgiram e qual foi o papel do nikkei na sedimentação no Brasil?

Links patrocinados

-Por que o interesse por quadrinhos e animações do outro lado do mundo?

-Um glossário de termos e os eventos que existem atualmente

Sakiko Hayakawa – adida cultural da Embaixada do Japão no Brasil. Traduzido do japonês. 01/12/2008 – Embaixada do Japão no Brasil.


Fonte: http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/manga_anime.htm

Contexto do Mangá e do Animê no Brasil

Sakiko Hayakawa – adida cultural da Embaixada do Japão no Brasil
Traduzido do japonês

01 de dezembro de 2008
Embaixada do Japão no Brasil

1. Introdução

Nos últimos tempos, a popularidade do animê e do mangá japonês em todo o mundo é impressionante e aqui no Brasil o fenômeno não é diferente. Na televisão, são exibidos um grande número de animês, e, nas bancas de jornal, são vendidas revistas de mangá corriqueiramente, com um amplo público cativo. Nos eventos ligados ao animê, jovens trajados para os eventos de cosplay fazem fotografias um dos outros, e, nos concursos de oratória em japonês, muitos dos participantes confessam que começaram a estudar o idioma motivados pelo desejo de assistir animês e ler mangás em suas versões originais.
Quando converso com autoridades, políticos e pessoas de destaque na sociedade, eles comentam: “meu filho é fã de Pokemon” ou “minha filha gosta de Sakura Card Captors…”.

Este texto é uma síntese do levantamento sobre a popularidade do animê e do mangá e como eles se difundiram pelo Brasil. Também avalia se existe alguma peculiaridade brasileira nesse mercado, inexistente ou menos evidente em outros países. Avaliamos também o grau de popularidade desse fenômeno, já que se percebe que um boom de cultura popular japonesa vem ocorrendo com mais intensidade no Brasil já há alguns anos.

2. História da difusão do mangá e animê no Brasil – Cronologia

● A partir de 1945 – Introdução da cultura do mangá pelos imigrantes.

Naquela época, o mangá desempenhou um papel importante no ensino da língua japonesa aos descendentes, principalmente por oferecer a possibilidade de aprendizado dos kanji (ideogramas) por meio de furigana (as mesmas palavras escritas em silabário sobre os ideogramas, indicando a leitura destes), e também por contribuir na atualização do linguajar cotidiano, por meio dos diálogos utilizados no mangá (diferentes do japonês falado pela geração dos imigrantes).

Os imigrantes adquiriam mangás em livrarias e sebos do bairro Liberdade ou encomendando-os diretamente do Japão.

● Décadas de 1950 e 1960 – Produção e publicação de mangás por nikkeis.

Década de 60: Paulo Fukue, Roberto Fukue, Fernando Ikoma (além de produzirem mangás, escreveram livros sobre a técnica dos quadrinhos japoneses) e outros. Todos eles receberam a influência dos temas e do design do mangá japonês.

Período de prosperidade da Editora Edrel (São Paulo). Publicou inúmeras revistas tendo como tema o universo dos samurai e dos ninjas.

● Década de 70: Editora Graficar (Curitiba). Kimio Shimazu, Júlio Shimamoto (Kiai) etc.

● Década de 80: Surgimento do mangá com influência do animê (principalmente títulos sobre robôs)

Oportunidade de estabelecer um mercado de mangás criados e produzidos no Brasil, mas como não havia editora de grande porte que se interessasse, o processo não se desenvolveu plenamente. Havia extrema dificuldade de um desenhista de mangá trabalhar como profissional, e muitos optaram por arrumar empregos no Studio Disney ou na Maurício de Sousa Produções, ou ainda trabalhar em outros ramos como design e publicidade.

Em relação à situação atual, podemos destacar:

● Década de 1970 – Início dos estudos acadêmicos sobre mangás. Publicação de artigos sobre mangá em jornais de associações acadêmicas e em jornais de língua japonesa.

Fundação da Mangateca.  

1990 Primeira tese de doutorado sobre mangás (professora Sônia Luyten). Na década de 90, começam a ser escritas diversas teses tendo como tema o mangá.

● Décadas de 1970 e 1980 – Início da exibição de animês e filmes de heróis como Ultraman, Fantomas, A Princesa e o Cavaleiro, Jaspion, Candy Candy etc.

● 1984 – Fundação da primeira organização brasileira de mangá Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustradores). Desde então, muitos órgãos começaram a desenvolver e promover atividades.

● 1994 – Início da exibição de Os Cavaleiros do Zodíaco na TV (TV Manchete).
Conquista uma popularidade estrondosa com índice de audiência de 14%.

● 1998 – Publicação de Ranma 1/2 pela editora Animanga

● A partir dos anos 2000 – Difusão da banda larga. Ampliação extraordinária da camada de espectadores de animê e de leitores e mangá via Internet.

 

3. Características da história de animê e mangá no Brasil

Atribuí-se à disseminação entre os não-nikkeis a popularidade do mangá e do anime. Entretanto, é importante considerarmos que a presença dos imigrantes japoneses e descendentes foi imprescindível para popularização e massificação do gênero.  E nesse ponto, a trajetória das revistas de mangá e das animações japonesas no Brasil difere da de outros países.

● Uma trajetória peculiar

 A história do animê e do mangá no Brasil começou, após a II guerra, com a introdução do gênero no país pelos imigrantes japoneses. Muito antes de iniciar o boom do animê e do mangá em outras nações do Ocidente, o gênero já havia sido introduzido e era apreciado no Brasil.

● Em razão da intensa relação de negócios entre o Japão e o Brasil, intermediada por nikkeis e brasileiros residentes no Japão, com base de negócios no Japão, o intercâmbio e a conseqüente comercialização de animês e mangás no Brasil foi intensificada.

● Existência de tradutores competentes em grande quantidade (predominantemente nikkeis) → contribuiu para a rápida difusão das obras por meio de fansub e scanilation .

Fansub – legendas que os fãs colocam por conta própria, em uma espécie de livre tradução dos espectadores. Normalmente é feito por um grupo de voluntários constituído por equipe de tradução, equipe de revisão e equipe de editoração. No dia seguinte ao da transmissão no Japão, já circula na Internet a versão com fansub.

Scanilation: ato de um fã de publicar um mangá na Internet colocando tradução feita por ele. Neologismo formado por Scan+translation.

4. Obras disponíveis no mercado

  1. Mangás japoneses: NARUTO, Pokemon, Inuyasha, On Piece, Dragon Ball Z, Vagabond, Evangelion, Ranma 1/2, Samurai X, Fruits Basket etc

※ São publicadas principalmente as obras que também dispõem de versões em animê que tiveram sucesso na TV.

※ Além disso, é amplamente praticada a leitura de mangás em japonês com base em traduções para o português, disponíveis na Internet ( o que fere os direitos autorais das obras).

Contexto da exibição dos animes no Brasil

TV a cabo: Cartoon Network, Animax, Jetix, Nickelodeon entre outros canais.

Em 2007, estavam no ar vinte e quatro animações japonesas (pesquisa JETRO):

Sakura Card Captors, Dragon Ball, Yu-Gi-Oh, Sakura Wars, Nadja, Mirmo Zibang, Pokemon, Medabots, Shaman King, Kirby, Digimon, Megaman: NT Warrior, Di Gi Charat Nyo, Crayon Shin-Chan, Hungry Heart, The Prince of Tennis, Initial D, Saber Marionette J, Saber Marionette J to X, Hunter x Hunter, Fullmetal Alcemist, Get Backers, Vandred, Wolf’s Rain.

Na TV aberta: Em 2007 eram exibidos sete títulos (pesquisa JETRO):

Yu-Gi-Oh, Hamtaro, Medabots, Dragon Ball GT, Astro Boy, Os Cavaleiros do Zodíaco, Tenchi Muyo

※ Além de estarem sendo exibidos o Hamtaro e o Astro Boy, que não tiveram muito sucesso na América do Norte, são exibidos também Sakura Wars, Nadja que não são exibidos lá.

※ Muitos assistem aos animês com fansub pela Internet (eles estão disponíveis já no dia seguinte ao da exibição no Japão). Circulam também cópias baixadas da Internet em CDs e vídeos (ambos os caso infringem os direitos autorais).

  1. Mangás brasileiros (histórias em quadrinhos produzidas no Brasil com estilo mangá japonês):

Nas décadas de 1950 e 1960, os nikkeis começaram a produzir e a publicar mangás. Existem hoje os mangás originários de fanzines e obras que alcançaram sucesso na Internet e posteriormente ganharam versões impressas.

Exemplos: Alexandre Nagano, “Mangá Tropical”: histórias ambientadas no Brasil.
Fábio Yabu, “Combo Rangers”(obra que nasceu na Internet)

5. Tamanho do mercado

É difícil determinar o número de fãs, mas temos abaixo os dados que podem servir de referência:

  1. O índice de audiência da TV quando estava sendo exibido o Dragon Ball Z (2000) foi de 10% → estimado em cerca de 16 milhões de telespectadores.
  2. A tiragem total de revistas de mangá: segundo consta, é de 1,5 milhão de exemplares por mês (estimativa do presidente Ikko do “Lum´s Club”). Considerando o número de leitores que alugam as revistas sem comprá-las, é possível que o número real de leitores ultrapasse 5 milhões.
  3. Trata-se de uma escala equivalente à América do Norte e França, dois maiores mercados do mangá japonês no exterior. E principalmente se considerarmos que, no Brasil, o número absoluto de consumidores da camada média para cima é menor que nesses países, percebe-se que existe um mercado e um potencial de expansão relativamente grandes (JETRO, 2007).

6. Caminho mais comum para o otaku

  1. Assistir ao animê na TV aberta (16 milhões?)
  2. → Começar a ler o mangá (5 milhões?)
  3. → Assinar TV paga para assistir outros animês.
  4. → Adquirir animês e mangás pela Internet (imagens com fansub e mangás com scanilation. Vasculhar sites em inglês.

※ Anipike(www.anipike.com)etc.

  1. → Filiar-se a clubes de fãs em busca de parceiros e interlocutores. Participar de eventos.  Participar de eventos de Cosplay
  2. → Muitos começam a estudar japonês por conta dos mangás e animes.
    ※ Há muitos casos de fãs de animê que se transformam em fãs de karaokê por meio do estudo do idioma japonês (muitos participantes da Caravana do Karaokê promovida pela Fundação Japão são fãs de animê).

 

7. Tendências dos fãs de mangá e animê

  1. Organizações de fãs e entidades afin

1984 – Fundada a primeira organização de mangá do Brasil, a Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustradores). Desde então, diversos grupos foram formados em todo o território nacional.

※ Surgiu como resultado da fusão entre a Associação dos Amigos do Mangá (composta principalmente pelos alunos da classe de “História de Mangá” da USP), fundada dentro da Escola de Comunicação e Artes da USP na década de 1970, com a Comissão de Exposição de Mangá da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa. É pioneira também no mundo.

※ Sua atuação é bastante diversificada, realizando eventos e concursos internacionais de mangá, publicando fanzines, mantendo seu site (www.abrademi.com), realizando cursos de mangá etc.

  1. Centro de animê (a maior organização de fãs do Rio de Janeiro. Predominam os universitários)
  2. Anima Mundi (Rio de Janeiro. Predominam os professores universitários. Todos os anos realiza um megaevento no Centro Cultural Banco do Brasil)
  3. Nordeste: cerca de 40 entidades (em 2007). Existe o movimento no sentido de fundar a Federação Nordestina de Animê

● Revistas informativas de animê e mangá
Em 1984, a Abrademi publicou a primeira revista brasileira de informações sobre animê e mangá “Informativo Abrademi”. A partir dos meados da década de 90 começaram repentinamente a diversificar-se, ultrapassando 50 tipos de boletins e informativos em 2004.

 O conteúdo é diversificado, havendo desde informações gerais sobre animê e mangá até matérias especializadas em determinados personagens e explicação sobre como desenhar mangá.
Exemplos: Animeclube, Os Cavaleiros Zodíaco, Como Desenhar Mangá

● Fanzine (fanatic + magazine)
Em 1985, a Abrademi publicou o primeiro fanzine brasileiro “Clube do Mangá”. Principalmente a partir da década de 90, passaram a ser publicados diveros fanzines.

 Por intermédio dos fanzines, surgiram autores de mangá nikkeis tais como Erika Awano, Elza Keiko, Denise Akemi e outros.
Exemplos: Animê Club, Animangazine (ambos da Abrademi). Dark Rose (MG), Konjo Mangá e Japanimation (RJ), Mangá Express, Dojinshi Tokubetsu Mangá (SP)

● Eventos para fãs
São realizadas convenções de animê em 15 dos 26 estados brasileiros ( 2007).
A programação inclui shows de cantores de músicas de animê, talk show com os dubladores de animê, concurso de cosplay, campeonato de game, venda de produtos relacionados com animê, oficinas etc.

São os seguintes os principais eventos:

Animecon (São Paulo)

Iniciado em 1999, com 3.200 participantes. Em 2002 participaram cerca de 20 mil pessoas em quatro dias. Há quem venha de avião de outras regiões.

Anime Friends (São Paulo)

Iniciado em 2003. Derivou do Animecom. Em 2008, participaram cerca de 40 mil pessoas.

KODAMA (Brasília)

Iniciado em 2002. Em 2008, houve cerca de 5.000 participantes. Funciona também como a seletiva regional para o World Cosplay Summit. É o maior evento do gênero em Brasília.

OTACON (Brasília)

Iniciado em 2007. Em 2008 contou com a participação de cerca de 4.500.

 

Super Hero Con (Recife)

Iniciado em 2004. Em 2007 participaram 8.000 pessoas

 

Evento realizado por SANA (Fortaleza)

Em torno de 20.000 pessoas.

 

ANIMAZON TAIKAI (Belém)

Iniciado em 2004. Em 2008 houve a participação de cerca de 2.500 pessoas.

 

OTAKU NO MATSURI (Belém)

Iniciado em 2002. Em 2008, contou com a participação de cerca de 2.000 pessoas.

● Fãs: predominam os jovens entre 15 e 25 anos, da classe média e alta.

Segundo consta, 80% são não-nikkeis (estimativa feita a partir dos participantes do Animecon).

※ Porém, uma vez fãs, tendem a continuar fãs mesmo depois de adultos

8. Personagens e empresas chave

● Pesquisadores

Sônia Luyten – Ex-professora da PUC Santos (especialização: História do mangá)
Cristina Sato (pesquisadora, tradutora de animê e presidente da Abrademi)
Francisco Noriyuki Sato (primeiro presidente da Abrademi)

● Editoras

Editora JBC

Fundada por um imigrante, publica a revista Made in Japan. É uma das duas maiores editoras de mangá no Brasil. Publica aproximadamente 700 mil exemplares por mês, o que representa cerca da metade do mercado (em 2003). Predominam as revistas baratas de R$ 5,00 a R$ 10,00, vendidas principalmente nas bancas.

※ Como já publicava um jornal voltado para os brasileiros residentes no Japão e tinha credibilidade naquele país, a negociação com o detentor de direitos autorais foi facilitada.

Editora Conrad (não-nikkei)

Fundada em 1994, está crescendo vertiginosamente. Publica mangás com edições muito bem acabadas, que custam em torno de R$ 30,00 o exemplar. Publica também o informativo sobre mangá e animê “Herói”.

Editora Animanga: publicou “Ranma 1/2” (1998), que foi o estopim do boom do mangá no país. Pioneira do setor de mangás do Brasil.

※ No início da década de 90, foram publicados, pelas editoras Globo, Abril, entre outras,  mangás como “AKIRA”, “Lobo Solitário”. Os títulos foram suspensos por não terem obtido o sucesso necessário para a sobrevivência da publicação.

● Livrarias

Livraria Fonomag

Proprietário: Joji Aso. São Paulo. Possui um dos maiores estoques de mangá e animê do Brasil.

9. Razão da popularidade/ difusão de animê e mangá

Têm sido apontados os seguintes pontos como razão da popularidade do mangá e do animê no Brasil:

● Trajetória peculiar no país (ver subtítulo 3)

● Os brasileiros gostam de enredos dramáticos, como pode ser notado pela popularidade das novelas (conhecidas pelo desenrolar dramático e rápido da trama). Afinidade cultural com o mangá.

● Histórias atraentes.
São variadas e cheias de novidade.
Não são histórias maniqueístas.
O aspecto psicológico é realista apesar das ilustrações dos traços não priorizarem uma abordagem realista.

※ No Japão não ocorreu o patrulhamento moralista aos moldes do que ocorreu com o segmento editorial de quadrinhos nos EUA até a década 1950.

Primam na descrição da instabilidade psicológica típica da adolescência.

● O entretenimento era dividido entre o conteúdo e a abordagem voltados para crianças e os voltados para os adultos, faltando opções aos os adolescentes. O mangá e o animê vieram preencher esta lacuna.

● Compartilhamento das mesmas percepções decorrente da globalização. Os mangás e  os animês tem um caráter e apelos internacionais.

● Riqueza dos traços e ilustrações

● Como cada mangá é escrito por um único autor, as histórias seguem alguma coerência (os quadrinhos americanos, muitas vezes, pecaram pela falta de coerência e continuidade, pois diversos autores, ao longo de décadas, foram responsáveis por um único título ou personagem).

10. Pontos problemáticos (opiniões de quem trabalha na produção)

● Demora na obtenção de licença para publicar mangás. Normalmente, leva cerca de três anos, e enquanto isso as tendências mudam (JBC).

● Existência de versões piratas.

● As obras de excelente qualidade não chegam ao Brasil, havendo a tendência de serem introduzidas somentes aquelas que estão tendo sucesso nos EUA.
● Por ser mais fácil o processo, adquirirem os direitos para a publicação via Europa e EUA. É comum a tradução ser feita com base nas legendas em inglês. Isso quando seguem os trâmites legais, porque, na prática, é comum os fãs adquirirem as imagens diretamente via Internet.

11. Tendências atuais e potencialidade futura

● Festivais de animê cada vez mais movimentados.
O público do Anime Friends foi de 22.000 pessoas em 2003, ano em que foi inaugurado o evento, e em 2005 subiu para 42.000. Mesmo nos demais eventos o número de participantes tende a crescer rapidamente. Há muitos participantes que vêm de longe, viajam horas ou pegam aviões para estar presentes.

● Popularidade do cosplay: nos festivais de mangá e animê é realizado também o concurso de cosplay. São realizadas seletivas para o World Cosplay Summit em diversas regiões. No World Cosplay Summit, o Brasil conquistou ótimos resultados nas últimas seis edições (das quais 4 foram em forma de concurso), sagrando-se campeão por duas vezes.
※ Para alguns estudiosos, a excelente classificação do Brasil nos concursos de cosplay por conta da tradição do Carnaval e, quando se pensa em fantasia, pensa-se em recorrer aos profissionais (de criação de vestuário), havendo também profissionais que atendem a esta demanda, o que o deixa em vantagem sobre os demais países, inclusive o Japão, que têm a tendência de cada um fazer artesanalmente sua fantasia.

● A partir de 2004, houve um aumento considerável na procura por cursos de língua japonesa por brasileiros não-nikkeis.

12. Outros (informações adicionais)

OTAKU: fanático por animê e mangá. Diferentemente do Japão, não tem conotação
negativa.

Animê, mangá: no Brasil, “animê” e “mangá” indicam os desenhos animados japoneses e as histórias em quadrinhos japonesas. Os demais são chamados de desenhos animados e histórias em quadrinhos, estabelecendo-se uma distinção.

※ Assim, não existe a expressão “animê da Disney”. Os da Disney são “desenhos animados” ou animações.

Animekê: karaokê de animê. Há muitos fãs que sabem cantar em japonês. Nos encontros entre afcicionados, encontra-se jovens cantando as músicas de animê a pleno pulmão.

Muitas das músicas de animê têm como tema o amor, a amizade, o sonho, a coragem etc., obtendo a simpatia dos jovens, porque eles “identificam-se com as letras”, e as músicas “dão coragem para lutar”.

Era do Mangá – “AC” e “DC”: tendo em vista que a exibição na TV de “Os Cavaleiros do Zodíaco” em 1994 se tornou o divisor de águas da popularidade do animê e do mangá no Brasil, alguns profissionais do segmento chamam o período anterior a 1994 de “AC” (Antes dos Cavaleiros) e o período posterior de “DC” (Depois dos Cavaleiros).No Brasil os jovens lêem os mangás sem distinção de sexo, mesmo aqueles que no Japão são classificados como mangá para meninas.

11. Conclusão

● Analisando todo o histórico, percebe-se a grande contribuição dos imigrantes e descendentes na popularização do animê e do mangá no Brasil. Sua história também é antiga, tendo iniciado com a introdução feita pelos imigrantes após a guerra e diferenciando-se por isso da de outros países do ocidente, onde o boom começou recentemente.

● Os fãs de animê e mangá do Brasil são predominantemente jovens da classe média ou alta, relativamente abastados. Por isso, espera-se que esta população aumente ainda mais se a economia continuar crescendo.

● O que chama atenção é a sede por conhecimento dos fãs. Os fornecedores não conseguem atender à demanda do público, que por sua vez, para suprir a ausência de produtos, se aventura,adquirindo animês e mangás por meio da Internet.Pode-se acusá-los de pirataria, mas todos eles são unânimes em argumentar: “mesmo que queira adquirí-los por vias legais, eles não estão disponíveis no mercado” ou “demoram muito até chegarem aqui”. Analisar a potencialidade do mercado de animê e mangá do Brasil não está no escopo deste trabalho, mas não posso deixar de sentir que estão perdendo uma ótima oportunidade de negócio.

● Em conexão com o que foi dito acima, devo mencionar que uma das características dos fãs de animê e mangá é a voracidade e a impetuosidade em satisfazer seu desejo. Por exemplo, em vez de ficarem esperando que a embaixada organize o evento, os próprios fãs se unem para organizá-lo eles mesmos, entrando em contato direto com os cantores de músicas de animê do Japão e os convidando.
Então a ajuda da embaixada é desnecessária? De maneira alguma. Quando a embaixada os aborda, eles mostram-se interessados em construir uma relação de cooperação, dizendo ser uma honra, e que querem muito aprofundar o relacionamento. A considerar a energia deles, creio ser mais eficaz a embaixada colaborar conferindo prestígio ao evento deles, comparecendo a ele, apoiando e co-patrocinando.

● Já existiam fãs de cultura japonesa, mas os fãs de animê e mangá costumam ser mais entusiastas que esses. Além disso, seu interesse não se restringe ao animê e ao mangá, estendendo-se à cultura como um todo do Japão, país de origem destes. Os fãs aprendem sobre o Japão por meio das animações e dos quadrinhos, expressam admiração pelo relacionamento humano entre “senpai e kohai” (veteranos e calouros), veneram o “Akihabara” como santuário e sonham em visitar um dia a “Tokyo Tower” que aparece nos mangás.
Esses fãs fervorosos têm a tendência de preservarem sua paixão pelo animê e mangá mesmo em idade adulta, com compromissos profissionais e com família constituída. Ouço comentários de autoridades, políticos e pessoas de destaque da sociedade que seus filhos e filhas são fãs de anime e mangá. Não posso deixar de concluir que daqui a 20, 30 anos, os próprios Otaku deverão estar ocupando as posições centrais da sociedade.

[Bibliografia]
JETRO – Pesquisa sobre indústrias de conteúdos do Brasil (Série de pesquisas para estímulo da exportação), março de 2007
Sônia B. Luyten ed., Cultura pop japonesa, Hedra, 2005
Sônia B. Luyten, manGa, o poder dos quadrinhos japoneses, Hedra, 2000
Sônia B. Luyten, Panorama do Mangá e Animé, in Guia da Cultura Japonesa, Editora JBC, 2004
Sônia Luyten, Zanshin katsu haiburiddo na Burajiru manga no sozo e (Para a criação de mangá brasileiro inovador e híbrido), Wochikochi, No 19, edição de outubro/novembro de 2007
Nanae Kumano e Masayo Hirotoshi, “Anime, manga” chosa kenkyu – Chiiki jijo to nippongo kyozai (Pesquisa e estudo de “animê e mangá’” – Realidade local e materiais didáticos para ensino de língua japonesa), Fundação Japão – Nippongo Kyoiku Kiyo, no 6 (2008)
Mishio Suzuki, Hito no kokoro ni “kokkyo” wa nai (O sentimento humano não conhece fronteiras) (29 de julho de 2008), Kyokan yobu Nippon no hiro (Os heróis japoneses provocam empatia) (05 de agosto de 2008), Burajiru ni ookina kanosei (Brasil tem grande potencialidade) (09 de agosto de 2008), Anime ya tokusatsu de Nippon ni kyomi (Interesse pelo Japão gerado por animê e efeitos especiais) 12 de gosto de 2008), Sabukarucha wa kokkyo o koete (A subcultura atravessa fronteiras) (15 de agosto de 2008), Sekai o tsunagu “Anison” (As músicas de animê unem o mundo) (19 de agosto de 2008) – YOMIURI ONLINE
Masayuki Fukazawa, Ekkyo suru Nippon bunka – Manga – anime (1)-(9) (A cultura japonesa atravessa fronteiras – Mangá e animê (1) – (9)), Jornal Nikkei, 2003

[Principais sites relacionados com o assunto]
Abrademi www.abrademi.com Site de uma organização brasileira de mangá
Anipike  www.anipike.com Site americano de informações sobre animê
Papo de Budega  www.papodegudega.com  Site brasileiro de desenhos animados (abrange os desenhos animados em geral, e não apenas os animês do Japão)
JBOX www.jbox.com.br  Site criado por fã que aborda assuntos como animê, mangá e efeitos especiais

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